Publicado em 08/03/2021 às 09h29 | 265 visualizações |

Ousadia e resistência na luta contra o preconceito de gênero

 

Em entrevista concedida na manhã desta segunda-feira (8), ‘Dia Internacional da Mulher’, a presidente do Sinte Piauí, Paulina Almeida faz um balanço do percurso histórico da luta das mulheres e o contextualiza no cenário nacional e estadual. Leia na íntegra:

Ascom- Qual a importância do Dia Internacional da Mulher?

Paulina- Na minha visão, esta data, a cada ano cresce em importância por identificar criticamente as conquistas sociais, políticas e culturais das mulheres, os avanços que atingimos com muita organização e sacrifício. A visão crítica neste caso, faz com que chamemos atenção de toda a sociedade para que esta perceba o quanto é justa a nossa luta por igualdade de direitos e de condições em relação aos homens.

Além disto, a data nos possibilita fazer um regate histórico deste processo, que vem lá do início do século passado, quando nos unimos e fomos para as ruas exigir o direito de votar e condições dignas de trabalho. Portanto, é uma data que foi construída historicamente no contexto dos movimentos sociais que já contavam com a nossa participação efetiva.

Ascom- Como está a situação das mulheres no mundo?

Paulina- Bem, de fato, em todo mundo, continuamos, mesmo considerando as questões específicas de cada região, em geral lutando pela igualdade, pois os avanços são pontuais. Há quatro anos, por exemplo, na defesa dos nosso direitos e em protesto a postura machista do então presidente americano, Donald Trump, realizamos mais de 600 passeatas no mundo todo.

Na realidade, a luta se mantém globalmente, pois a nossa representatividade ainda é pequena em várias áreas e setores, nos relegando a um plano secundário, minimizando nosso talento e abdicando da contribuição que podemos dar, e somos capazes de fazê-lo, a humanidade, como se pode constatar no fato de um terço das organizações no mundo não terem mulheres na composição de suas diretorias ou gerências.

Apesar de, em alguns países, ser perceptível o avanço em relação a igualdade de gênero, como na Islândia e na Nicarágua, no geral, o progresso na igualdade de gênero é lento. Um estudo do Fórum Econômico Mundial, de dezembro de 2018, avaliou que somente no ano de 2126, teremos igualdade de gênero no que tange a participação econômica, educação, saúde e política.

Apesar deste dado, a maioria dos países caminha no sentido da paridade de gênero e isto aumenta a nossa chama no enfrentamento para atingir a igualdade de gênero.

Ascom- E a realidade brasileira neste campo, o das questões de gênero?

Paulina- No nosso país, enfrentamos uma realidade muito dura. Ocupamos somente 39,1% das gerências nas organizações, de acordo com dados do IBGE, em 2011, essa proporção era de 39,5%. Recebemos, nas mesmas funções dos homens, em regra, 75% do salário deles, e ainda cuidamos da casa e da família por mais horas do que eles.

Politicamente também ainda temos muito que avançar na disputa pelos espaços de poder, pois nestes é que teremos condições de implementar políticas públicas que respeitem a nossa capacidade e nos valorizem. Nas últimas eleições foram eleitas 659 prefeitas. Parece muito, mas, na verdade equivale a 12,08% do total de prefeitos eleitos no país, o deixa bem claro o quanto de trabalho e de luta temos pela frente.

Ascom- Qual o seu desdobramento da crise sanitária nas questões de gênero?

Paulina- Em primeiro lugar, necessário reconhecer a predominância das mulheres atuando, em distintos graus, no cenário da pandemia, em diversas atividades essenciais, como educação, serviços gerais, saúde e comércio, por exemplo, no Brasil e nos demais países.

No entanto, a maioria está sendo severamente impactada com, entre outros fatores, a perda de emprego e a violência doméstica, culminando com o aumento dos casos de feminicídio. Fica evidente que o confinamento, em função da pandemia, impôs um jugo sobre muitas mulheres, o de ficar presa em casa com seus agressores, mais expostas a episódios de violência doméstica.

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mostram que 648 mulheres foram vítimas de feminicídio no primeiro semestre do ano passado, e mesmo que fosse somente uma, já é motivo para que nos coloquemos em pé de guerra contra esta situação.

 Neste período da pandemia, os relatórios da ONU Mulheres também deixam claro que vários países registraram aumento nos índices de violência doméstica e um crescimento na demanda por abrigo de emergência. No nosso país foi registrado um aumento de 3,8% nas ligações denunciando violência doméstica.

Ascom- Como a senhora avalia a luta das mulheres no cenário do nosso estado?

Paulina- Vejo com extrema preocupação a realidade para nós, mulheres piauienses, com o número crescente de casos de violência contra a mulher, do número de tentativas de feminicídio e de casos deste tipo de crime.

Me assustou muito um estudo de 2019, feito pelo Núcleo de Promotorias de Justiça de Defesa da Mulher Vítima de Violência Doméstica e Familiar (Nupevid) e pelo Núcleo das Promotorias do Júri de Teresina (NUPROJURI), que, entre outros dados, nos informa que a cada cinco mulheres atacadas em Teresina, duas morreram.

Lembro ainda, do aumento significativo no número de vítimas de violência doméstica que recorreram ao aplicativo Salve Maria no primeiro semestre de 2020, em comparação com o mesmo período no ano anterior, de acordo com informe da Secretaria Estadual de Segurança Pública.  

Ascom- E no que diz respeito, mais especificamente, as demandas das trabalhadoras em educação básica da rede estadual?

Paulina- A nossa categoria é integrada principalmente por nós, mulheres. Por isto, as dificuldades e penúrias impostas aos/as profissionais em educação da rede estadual pelo governo Wellington Dias repercutem de forma contundente sobre as mulheres e se constituem também em uma pauta da agenda das mulheres.

Eu, como mulher, profissional da educação e aposentada, como a maioria das minhas colegas, sinto o peso triplicado do arrocho salarial e do desconto na previdência, após a aprovação da hedionda e, para dizer o mínimo, imoral reforma da previdência estadual em dezembro de 2019.

Sei o quanto de sacrifício a falta de sensibilidade e respeito pela categoria é imposto a todos e todas, mas é evidente que, esta imolação, sem reajuste do piso profissional há dois anos, indo para o terceiro, o desrespeito a subvinculação de 60% do Fundeb e o desconto da previdência, sobrecarrega mais a nós, mulheres.

Mas, somos resistência, e sem desalento, continuaremos defendendo com unhas e dentes a educação pública de qualidade e a nossa valorização, contra tudo e contra qualquer um que atente contra os nossos direitos.

Ascom- Nesta dimensão de problemas e enfrentamentos, quais as perspectivas para que as plataformas das mulheres avancem?

Paulina- Sei que a realidade é dura, também, como disse anteriormente, “sofro na carne”, e só eu sei como, assim como cada uma de nós sabe “onde o calo aperta”, mas tenho a certeza de que, com a união que a categoria tem demonstrado, principalmente antes da pandemia e da restrição social, em reconhecimento ao enfrentamento que temos feito dia a dia, vamos vencer os que nos desvalorizam e tem a educação pública como alvo prioritário de suas maldades.

 

 

 

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